sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ciranda



terra em roda do sol
poeira do universo
peixe lambe anzol
na rima deste verso

família em roda do fogo
tem medo do escuro
rola-bostas dando ré
garantem o futuro

mosquitos em roda da vela
curtindo o calor
vermes engravatados
no liquidificador

em roda do fosco homem
a ambição impera
e por cima de tudo
sete palmos de terra




xaxá

Maldade



a maldade é um buraco
negro que nos trai

víbora que devora a língua
e os olhos de um filho

para se deliciar com os corações
de uma mãe e de um pai




xaxá


O Gato comeu


cadê o amor que deixei aqui?
procurei na sala de estar
revirei as gavetas do criado
surdo-mudo não quis delatar

nada encontrei na sacada
na cama, na geladeira
no armário das crianças
no reflexo da penteadeira

esqueci onde o guardei
onde diabos ele se meteu?
será que resolveu fugir
ou apenas se escondeu?

cadê o amor que deixei aqui?
- o gato comeu! o gato comeu!
gato abestado, sem noção
sabe com que rato te meteu?



xaxá


sábado, 17 de junho de 2017

Isto não


eu sou o sertão, vi de tudo neste mundo
já fui fundo de mar, fui casa de Lampião
vi um menino quebrar gaiolas
abrir buracos e plantar água no chão

este menino me deu esperança
das arapucas fez confortáveis ninhos
a música da caatinga o ensinou
valorizar flores e respeitar espinhos

quando este bezerro virar um garrote
e na cidade, estudado, for um cidadão
o esquecimento será o seu mote?
- isto não, isto não, isto não...

eu sou o sertão, vi de tudo neste mundo
mas generosidade me toca o coração
das palmas, ele espantava as guinguirras
só depois delas fazerem a refeição

urubus voando em círculos no céu
na vertical, apenas um deles desce
a natureza homenageia com festa
o menino que o engrandece

quando este bezerro virar um garrote
e na cidade, estudado, for um cidadão
o esquecimento será seu mote?
- isto não, isto não, isto não...




xaxá










Forró do Dido


se tô aqui não me sinto velho
minhas juntas tocam percussão
o forró do compadre Dido
atiça a minha imaginação

olho o rebolado das meninas
como fazia nos tempos de rapaz
não tem pinga ou vitamina
pra fazer o que o fole faz

os olhos avisam quem eu sou
um forrozeiro, macho tradicional
no chaveiro levo um canivete
pra manter a fama de mau

quando estou no forró do Dido
minha velha não manda me chamar
se chego com zabumba no peito
ela sabe que vamos vadiar

a felicidade rompe toda a noite
nosso amor é quente e sacudido
se acordo tocando pandeiro
é hora de voltar pro moído




xaxá



terça-feira, 13 de junho de 2017

Antagônicos

David Winne

do começo do fim
ao fim do começo
durmo pensando
se amanheço

quando em algo entro
de algo sempre saio
daqui nada se leva
esvazie o balaio

no silêncio, o profundo
na fala, as superfícies
as colinas do mundo
morrem planícies

lutando dentro do caos
o ordeiro é vencido
o banco das memórias
guarda o esquecido

altura gera o medo
do chão seguro
o dia em segredo
corre pro escuro

confesso que não sei
não dá pra entender
por que tanta vida
nasce pra morrer




xavier

Lentamente


bem devagar
passa a noite fria
o mastigar da boca
que a fome consome

o ano sem chuvas
o sol no interior da pedra e
o pó, brinquedo triste
do vento no chão

em baixa velocidade
passa o som
os dias, a febre, a dor
a voz do amor perdido
o lume que vaga
nas noites vazias

lentamente passa
a sensação do toque
das tuas mãos
no meu rosto... breve






xavier